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D. Catarina de Bragança e o chá, já sabias?

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D. Catarina de Bragança e o chá, já sabias?

Há poucas coisas que associemos tanto aos britânicos como uma chávena de chá. 

Mas nesta história há uma portuguesa que merece ser protagonista: Dona C. de Bragança.

C. Henriqueta de Bragança nasceu em 1638, filha de D. João IV e de D. Luísa de Gusmão. Era filha do primeiro rei da dinastia de Bragança e cresceu num momento particularmente importante para Portugal. Depois da Restauração da Independência, a 1 de dezembro de 1640, o país precisava de consolidar a nova dinastia, obter reconhecimento internacional e garantir aliados capazes de ajudar a defender a independência face a Espanha.

É neste contexto que surge  Inglaterra.

Em 1662, Dona C. casou com o rei Carlos II e tornou-se Rainha Consorte de Inglaterra, Escócia e Irlanda. Naquela época, um casamento entre casas reais era também uma importante decisão diplomática. A união reforçou a aliança entre Portugal e Inglaterra e trouxe a Portugal apoio político e militar num período decisivo.

O casamento de D. C. não foi propriamente um conto de fadas. Carlos II teve várias amantes e numerosos filhos ilegítimos, alguns deles muito presentes na própria corte. D. C. nunca conseguiu dar-lhe um herdeiro, mas, apesar das pressões para que se divorciasse da rainha portuguesa, Carlos II manteve o casamento e protegeu-a durante alguns dos momentos políticos mais difíceis da sua vida em Inglaterra.

E D. C. não chegou propriamente de mãos vazias.

O seu dote era extraordinário. Portugal comprometeu-se a entregar dois milhões de cruzados, importantes privilégios comerciais e dois territórios de enorme valor estratégico: Tânger, no Norte de África, e Bombaim, na Índia.

E a sua influência poderá ter chegado até Nova Iorque. O nome de Queens, associado ao condado criado em 1683, é tradicionalmente ligado a D. C. de Bragança, embora não exista documentação da época que o confirme de forma definitiva.

Mas D. C. levou também para Inglaterra coisas bastante menos territoriais.

Levou os seus hábitos, os seus gostos e uma cultura de corte portuguesa profundamente influenciada pelos contatos que Portugal mantinha com o Oriente.

E é aqui que aparece o chá.

O chá já era conhecido em Inglaterra, mas era ainda um produto exótico, raro e caro, associado inicialmente também a utilizações medicinais.

D. C., porém, estava habituada a bebê-lo. E, como tantas vezes acontece com as modas, aquilo que a rainha fazia começava a ser observado e imitado.

Beber chá ganhou prestígio e foi-se tornando cada vez mais associado à aristocracia e à sociabilidade da corte. D. C. é, por isso, considerada uma das figuras importantes na popularização do hábito de beber chá entre as elites inglesas.

Mas não se tratava apenas da bebida.

Em torno do chá existia todo um universo de objetos, gestos e formas de receber. Chávenas, pires, bules, porcelanas orientais e outros objetos de luxo faziam parte desta cultura de corte.

D. C. trouxe consigo uma forma de receber e de estar à mesa marcada também pela tradição portuguesa de hospitalidade.

É-lhe ainda tradicionalmente atribuída influência na valorização de alguns hábitos e objetos à mesa, como a porcelana e o uso do garfo. D. C. terá contribuído para a sua divulgação e valorização na corte, tal como aconteceu com outros elementos associados ao seu modo de vida.

D. C. não levou apenas hábitos à mesa. Católica numa Inglaterra protestante, manteve a sua identidade religiosa e cultural. A sua casa e a sua capela tornaram-se importantes espaços da comunidade católica em Londres. Destacou-se também pelo apoio à música sacra e às artes.

Mas então foi D. C. quem criou o famoso chá das cinco?

Não!

Para chegarmos ao ritual que hoje conhecemos como afternoon tea, temos de avançar quase dois séculos.

Por volta de 1840, o costume ficou associado a Anna Maria Russell, Duquesa de Bedford. Numa época em que o jantar entre as classes mais abastadas era servido cada vez mais tarde, o intervalo entre as refeições podia tornar-se bastante longo. A duquesa começou então a tomar chá acompanhado por pequenas porções de comida durante a tarde.

O hábito tornou-se progressivamente um momento de convívio e sociabilidade entre as classes mais altas. Surgiram as pequenas sanduíches, entre elas as de pepino, os scones, os doces e todo o ritual que hoje reconhecemos como o tradicional chá da tarde britânico.

E chegamos a outra curiosidade.

Primeiro o chá ou primeiro o leite?

Com a popularização dos chás pretos, tornou-se também habitual adicionar leite, ajudando a suavizar o amargor e a adstringência provocados pelos taninos.

Há duas formas tradicionais de o servir. Pode colocar-se primeiro o chá e acrescentar depois o leite, ou pode fazer-se precisamente o contrário: colocar primeiro o leite e só depois servir o chá.

E esta segunda forma tem uma explicação histórica curiosa.

Segundo uma das explicações tradicionais, alguns serviços de chá utilizavam chávenas de porcelana muito delicada. Ao receberem diretamente o chá muito quente, podiam sofrer um choque térmico e rachar.

A solução era simples.

Colocava-se primeiro um pouco de leite frio na chávena. O leite ajudava a moderar a temperatura quando o chá quente era vertido, protegendo assim a porcelana mais delicada.

Aquilo que hoje pode parecer apenas uma questão de gosto ou etiqueta teria, portanto, também uma função prática.

Com o tempo, a escolha entre milk first e tea first deixou de ser uma necessidade e transformou-se numa daquelas pequenas discussões que fazem parte da cultura britânica do chá, hoje.

E é curioso pensar em tudo aquilo que cabe dentro de uma simples chávena.

Uma princesa portuguesa.

Uma nova dinastia que precisava de consolidar a independência de Portugal.

Um casamento entre duas casas reais.

Um dote de dois milhões de cruzados.

Tânger.

Bombaim.

Porcelanas, chá e novas formas de convívio à mesa.

E, quase duzentos anos depois, o nascimento do famoso afternoon tea.

D. C. regressou a Portugal em 1693. Era então uma rainha viúva e não tinha filhos que a ligassem à sucessão inglesa. Mas o seu papel político estava longe de terminar. Ainda viria a assumir funções de regência durante o reinado do irmão, D. Pedro II, antes de morrer em Lisboa, em 1705.

A sua história é, portanto, muito maior do que a chávena de chá pela qual tantas vezes é recordada.

Mas da próxima vez que alguém lhe disser que não há nada mais britânico do que o chá, já sabe:

Antes do chá das cinco, houve D. C. de Bragança!

There are few things we associate as much with the British as a cup of tea. 

But in this story, there is a Portuguese woman who deserves to be the protagonist: Dona C. de Bragança.

C. Henriqueta de Bragança was born in 1638, the daughter of D. João IV and D. Luísa de Gusmão. She was the daughter of the first king of the Bragança dynasty and grew up in an especially important moment for Portugal. After the Restoration of Independence on 1 December 1640, the country needed to consolidate the new dynasty, obtain international recognition, and secure capable allies to help defend independence from Spain.

It is in this context that England emerges.

In 1662, Dona C. married King Charles II and became Queen Consort of England, Scotland, and Ireland. At that time, a marriage between royal families was also an important diplomatic decision. The union reinforced the alliance between Portugal and England and brought Portugal political and military support in a decisive period.

Dona C.'s marriage was not exactly a fairy tale. Charles II had several mistresses and numerous illegitimate children, some of whom were very present in the royal court. Dona C. never managed to give him a legitimate heir, but despite the pressure to divorce the Portuguese queen, Charles II maintained the marriage and protected her during some of the most difficult political moments of her life in England.

And Dona C. didn't exactly come empty-handed.

Her dowry was extraordinary. Portugal committed to delivering two million cruzados, important commercial privileges, and two territories of enormous strategic value: Tânger in North Africa and Bombay in India.

And her influence may have even reached New York. The name of Queens, associated with the county created in 1683, is traditionally linked to D. C. de Bragança, although there is no documentation from the time to confirm this definitively.

But D. C. also took to England things that were much less territorial.

She took her habits, her tastes, and a deeply Portuguese court culture that was heavily influenced by the contacts that Portugal maintained with the East.

And it's here that the tea appears.

Tea was already known in England, but it was still an exotic, rare, and expensive product, associated initially with medical uses as well.

D. C., however, was accustomed to drinking it. And, as often happens with fashions, what the queen did began to be observed and imitated.

Drinking tea gained prestige and became increasingly associated with the aristocracy and the sociability of the court. D. C. is, therefore, considered one of the important figures in the popularization of the habit of drinking tea among the English elite.

But it wasn't just the drink.

Around the tea there was a whole universe of objects, gestures, and ways of receiving. Teapots, saucers, jugs, oriental porcelain, and other luxury objects were part of this court culture.

D. C. brought with her a way of receiving and being at the table that was also marked by the Portuguese tradition of hospitality.

It is traditionally attributed to her influence in the valuation of some habits and objects at the table, such as porcelain and the use of the fork. D. C. will have contributed to its dissemination and valuation at court, just as happened with other elements associated with her way of life.

D. C. brought more than just habits to the table. As a Catholic in Protestant England, she maintained her religious and cultural identity. Her home and chapel became important spaces for the Catholic community in London. She also stood out for her support of sacred music and the arts.

But then it was D. C. who created the famous five o'clock tea?

No!

To arrive at the ritual we now know as afternoon tea, we have to go back almost two centuries.

Around 1840, the custom became associated with Anna Maria Russell, Duchess of Bedford. At a time when dinner among the upper classes was being served increasingly late, the interval between meals could become quite long. The duchess then began to take tea accompanied by small portions of food during the afternoon.

The habit gradually became a moment of socializing and conviviality among the upper classes. Small sandwiches emerged, including cucumber ones, scones, sweets, and the entire ritual that we now recognize as traditional British afternoon tea. scones, os doces e todo o ritual que hoje reconhecemos como o tradicional chá da tarde britânico.

And we arrive at another curiosity.

First tea or first milk?

With the popularization of black teas, it also became customary to add milk, helping to soften the bitterness and astringency caused by the tannins.

There are two traditional ways to serve it. You can put the tea first and then add milk, or you can do the opposite: put the milk first and only then serve the tea.

And this second method has a curious historical explanation.

According to one of the traditional explanations, some tea services used very delicate porcelain teacups. If they received the very hot tea directly, they could suffer a thermal shock and crack.

The solution was simple.

A little cold milk was placed first in the teacup. The milk helped to moderate the temperature when the hot tea was poured, thus protecting the more delicate porcelain.

What today may seem like just a matter of taste or etiquette would also have a practical function.

Over time, the choice between First milk e First tea It has ceased to be a necessity and has become one of those small discussions that are part of British tea culture, today.

And it's curious to think of everything that fits inside a simple tea cup.

A Portuguese princess.

A new dynasty that needed to consolidate Portugal's independence.

A marriage between two royal families.

A dowry of two million cruzados.

Tangier.

Bombay.

Porcelain, tea, and new forms of conviviality at the table.

And, almost two hundred years later, the birth of the famous afternoon tea. .D. Catherine returned to Portugal in 1693. She was then a widow queen and didn't have any children that would link her to the English succession. But her political role was far from ending. She would still come to assume regency functions during the reign of her brother, D. Pedro II, before dying in Lisbon, in 1705.

Her history is, therefore, much bigger than the tea cup of tea by which she is often remembered.

But the next time someone tells you that there's nothing more British than tea, you already know:

Before the five o'clock tea, there was Queen Catherine of Braganza!

Antes do chá das cinco, houve D. C. de Bragança!

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